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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Somos todos Rock

Desde o início dos anos 2000 o rock aprendeu a se dividir. Essa palavra que causa tantos desacordos: divisão. Quando você julga aquele por ser diferente, começa a surgir o “bullying” que causa recordáveis danos àqueles que sofrem. Podemos começar dizendo que ninguém é santo, e será que dentro do nosso próprio Rock, que sempre defendemos, não existe essa triste forma de tratar as diferenças, chamada “Bullying”?
Conversamos com o Christian Azevedo, 19 anos. O encontramos na Galeria do Rock e ele disse que já sofreu nas mãos dos próprios roqueiros: “Um dia eu estava andando na rua e um grupo de quatro caras começou a me zoar por conta da minha roupa. Eu usava calças coloridas e me chamaram de ‘viadinho’. Acho humilhante fazer isso com quem gosta de um rock diferente, porque no final de tudo, somos todos roqueiros”. Ele conta que os quatro rapazes usavam somente roupas pretas e coturnos, e confessa que não gosta desses estilos: “também não gosto das roupas que eles usam, e nem do tipo de rock que ouvem, em que nem se consegue ouvir a letra da música direito, mas nem por isso fico os xingando no meio da rua”.
Sabemos que existe mesmo essa diferença dentro do nosso estilo musical preferido. Sabe aquela típica família brasileira em que por lei deve conter um pai, uma mãe, uma filha namorando um menino, e um filho namorando uma menina? Bom, é um bom exemplo para darmos a respeito do conservadorismo. No Rock não é diferente. Conversamos também com o Paulo Ferreira, 27 anos, lá na Galeria. Ele acredita que existe o Rock, e o que chamam de Rock por preguiça de acharem outro nome que defina tal estilo. “Não consigo entender porque insistem em chamar essas bandas coloridas de Rock. É tudo fase, tudo modismo. Viu como já sumiram todos? Só sobra o rock de verdade. Confesso que tenho vontade de bater nesses famosos ‘emos’ ou naqueles de roupinha colorida. Não sabem como chamar aquele tipo de música, então incluem como rock. Ridículo isso, todos ‘poser’”. E não foi só o Paulo que teve essa opinião, mas também outras sete pessoas que conversamos, pensavam o mesmo. “Poser” é um termo muito usado no meio do Rock, pois significa algo “falso” que trai o movimento do Rock n’Roll. Praticamente todos usaram essa mesma expressão.

Cristian à esquerda e Paulo à direita
Mas mesmo tendo a opinião deles, estão corretos em discriminar assim o outro diferente? A sociedade denominou todos esses estilos como Rock. Mas que tal nos colocar na pele do outro? Foi o que disse Airan Correia, 30 anos. “Eu não gosto de julgar ninguém, porque eu sei que sou diferente. As pessoas me estranham, me encaram muito como se eu fosse algum tipo de aberração. Não digo a ninguém, mas tenho vergonha e fico chateado por isso. No fundo, somos todos iguais”. Airan colocou seu primeiro piercing aos 14 anos, e a partir daí não parou mais. Seu corpo todo tem tatuagens e piercings e possui uma barba comprida. Cada um se sente bem de uma forma, então por que julgar?
Quando pensamos em características daqueles que curtem Rock, temos outra divisão. Por um lado, aqueles todos de preto, e mesmo assim cada um tendo sua subjetividade; por outro, aqueles considerados “coloridos”; e também aqueles normais meros mortais, que não sabemos que gostam de rock apenas por olhar. É difícil citar uma característica que todos tenham, até porque cada um é muito diferente, mas o que podemos tirar de ensinamento por aqueles que conhecemos ao decorrer deste blog, é que todos não têm medo nenhum de expressar sua opinião, algo que os roqueiros fazem com facilidade desde o começo de tudo. Se a nossa música expressa sentimentos, por que não expressar os nossos? Essa é a questão.
Será que exatamente esse esquema de “expressar opinião e sentimentos” não contribui para o bullying? Não é o que a Paloma Murakami, 23 anos diz. “Acho sim que esse estilo proporciona para as pessoas essa forma de se expressar, mas não quer dizer que se deve ferir os outros, faltando com respeito. Acho que cada um tem seu estilo roqueiro, eu também tenho o meu, mas talvez seja essa a graça: sermos todos diferentes. Eu sempre digo o que penso, mas penso duas vezes em falar se isso for ferir alguém”.
Paloma também nos contou sobre como ser uma mulher roqueira: “Nunca me discriminaram, o que acontece são os caras que às vezes ficam surpresos em saber que conheço uma ‘tal banda’, como se somente eles tivessem direito a essa cultura. Mas quando você tem amigos que te conhece, isso não existe mais. A diferença é que não vou no meio dos bate-cabeça que acontecem nos shows, mas ainda estou lá curtindo igual”. Não existe diferença de sexo no Rock. Mais especificamente, as mulheres que gostam de tal tipo de Rock, geralmente têm o mesmo estilo do que os homens. A forma de se expressar continua a mesma. E aí de você em dizer que elas são diferentes.
Ambos frequentam os mesmos lugares. Por exemplo, o grupo do Paulo que conversamos acima sempre marca presença no “Manifesto Bar”, uma casa de shows lá no Itaim. A Paloma disse que sempre está com seus amigos no barzinho “The Pub” também em São Paulo. Segundo ela, gostam de se reunir para tomar uma cerveja e conversar sobre o dia a dia. “É algo normal, fazemos coisas que qualquer um faz, mas preferimos barzinhos que tocam as nossas músicas, aquelas que conhecemos. Já fui a alguns que só tocava sertanejo e pagode, não tenho nada contra, mas me senti deslocada. Querendo ou não, o estilo de música que gostamos forma nossa vontade sobre as coisas do dia a dia”.

Paloma à esquerda e Roberto à direita ( Cristina não quis aparecer na foto)
Conversamos com mais outras duas pessoas: Cristina Moraes, 22 anos, e Roberto Borges, 22 anos. Os dois são namorados e roqueiros, mas gostam de freqüentar lugares diferentes. Cristina gosta de se reunir com os amigos para tocar em sua banda, ela é a vocalista. Seu tão amado passatempo é completamente diferente do de Roberto, que gosta de passar o dia andando de Skate com os amigos, tudo ao som de “Charlie Brown”, é claro. “Gostamos de coisas diferentes, mas não quer dizer que não fazemos juntos às vezes. Adoro ir aos ensaios da Cris, assim como ela sempre se aventura no Skate comigo”, afirma Roberto.
Consequentemente encontramos todos os entrevistados acima no mesmo lugar: Galeria do Rock. Segundo Airan, é um lugar que se sente em casa. “Faço muitas compras aqui e me animo pra vir. É um lugar que ninguém me olha torto e posso fazer o que eu quiser”. Se você ir até lá, com certeza encontrará roqueiros de qualquer estilo, desde os que tem um mais casual até os mais pesados. Essa é exatamente a graça do local.

Galeria do Rock
O que não canso de dizer é que o Rock transparece como a sociedade está hoje: diversificada. Por que não ter pessoas diferentes dentro de um mesmo estilo musical?

Somos todos Rock, amigo. Vamos terminar nosso post com a frase mais clichê do Rock, mas também a mais verdadeira: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”...  

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