Desde o início dos anos 2000 o
rock aprendeu a se dividir. Essa palavra que causa tantos desacordos: divisão.
Quando você julga aquele por ser diferente, começa a surgir o “bullying” que
causa recordáveis danos àqueles que sofrem. Podemos começar dizendo que ninguém
é santo, e será que dentro do nosso próprio Rock, que sempre defendemos, não
existe essa triste forma de tratar as diferenças, chamada “Bullying”?
Conversamos com o Christian
Azevedo, 19 anos. O encontramos na Galeria do Rock e ele disse que já sofreu nas
mãos dos próprios roqueiros: “Um dia eu estava andando na rua e um grupo de
quatro caras começou a me zoar por conta da minha roupa. Eu usava calças
coloridas e me chamaram de ‘viadinho’. Acho humilhante fazer isso com quem gosta
de um rock diferente, porque no final de tudo, somos todos roqueiros”. Ele
conta que os quatro rapazes usavam somente roupas pretas e coturnos, e confessa
que não gosta desses estilos: “também não gosto das roupas que eles usam, e nem
do tipo de rock que ouvem, em que nem se consegue ouvir a letra da música
direito, mas nem por isso fico os xingando no meio da rua”.
Sabemos que existe mesmo essa
diferença dentro do nosso estilo musical preferido. Sabe aquela típica família
brasileira em que por lei deve conter um pai, uma mãe, uma filha namorando um
menino, e um filho namorando uma menina? Bom, é um bom exemplo para darmos a
respeito do conservadorismo. No Rock não é diferente. Conversamos também com o
Paulo Ferreira, 27 anos, lá na Galeria. Ele acredita que existe o Rock, e o que
chamam de Rock por preguiça de acharem outro nome que defina tal estilo. “Não
consigo entender porque insistem em chamar essas bandas coloridas de Rock. É
tudo fase, tudo modismo. Viu como já sumiram todos? Só sobra o rock de verdade.
Confesso que tenho vontade de bater nesses famosos ‘emos’ ou naqueles de
roupinha colorida. Não sabem como chamar aquele tipo de música, então incluem
como rock. Ridículo isso, todos ‘poser’”. E não foi só o Paulo que teve essa
opinião, mas também outras sete pessoas que conversamos, pensavam o mesmo. “Poser”
é um termo muito usado no meio do Rock, pois significa algo “falso” que trai o
movimento do Rock n’Roll. Praticamente todos usaram essa mesma expressão.
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| Cristian à esquerda e Paulo à direita |
Mas mesmo tendo a opinião deles,
estão corretos em discriminar assim o outro diferente? A sociedade denominou
todos esses estilos como Rock. Mas que tal nos colocar na pele do outro? Foi o
que disse Airan Correia, 30 anos. “Eu não gosto de julgar ninguém, porque eu
sei que sou diferente. As pessoas me estranham, me encaram muito como se eu
fosse algum tipo de aberração. Não digo a ninguém, mas tenho vergonha e fico
chateado por isso. No fundo, somos todos iguais”. Airan colocou seu primeiro piercing
aos 14 anos, e a partir daí não parou mais. Seu corpo todo tem tatuagens e
piercings e possui uma barba comprida. Cada um se sente bem de uma forma, então
por que julgar?
Quando pensamos em
características daqueles que curtem Rock, temos outra divisão. Por um lado,
aqueles todos de preto, e mesmo assim cada um tendo sua subjetividade; por
outro, aqueles considerados “coloridos”; e também aqueles normais meros
mortais, que não sabemos que gostam de rock apenas por olhar. É difícil citar
uma característica que todos tenham, até porque cada um é muito diferente, mas
o que podemos tirar de ensinamento por aqueles que conhecemos ao decorrer deste
blog, é que todos não têm medo nenhum de expressar sua opinião, algo que os
roqueiros fazem com facilidade desde o começo de tudo. Se a nossa música
expressa sentimentos, por que não expressar os nossos? Essa é a questão.
Será que exatamente esse esquema
de “expressar opinião e sentimentos” não contribui para o bullying? Não é o que
a Paloma Murakami, 23 anos diz. “Acho sim que esse estilo proporciona para as
pessoas essa forma de se expressar, mas não quer dizer que se deve ferir os
outros, faltando com respeito. Acho que cada um tem seu estilo roqueiro, eu
também tenho o meu, mas talvez seja essa a graça: sermos todos diferentes. Eu
sempre digo o que penso, mas penso duas vezes em falar se isso for ferir alguém”.
Paloma também nos contou sobre
como ser uma mulher roqueira: “Nunca me discriminaram, o que acontece são os
caras que às vezes ficam surpresos em saber que conheço uma ‘tal banda’, como
se somente eles tivessem direito a essa cultura. Mas quando você tem amigos que
te conhece, isso não existe mais. A diferença é que não vou no meio dos
bate-cabeça que acontecem nos shows, mas ainda estou lá curtindo igual”. Não
existe diferença de sexo no Rock. Mais especificamente, as mulheres que gostam
de tal tipo de Rock, geralmente têm o mesmo estilo do que os homens. A forma de
se expressar continua a mesma. E aí de você em dizer que elas são diferentes.
Ambos frequentam os mesmos
lugares. Por exemplo, o grupo do Paulo que conversamos acima sempre marca
presença no “Manifesto Bar”, uma casa de shows lá no Itaim. A Paloma disse que
sempre está com seus amigos no barzinho “The Pub” também em São Paulo. Segundo
ela, gostam de se reunir para tomar uma cerveja e conversar sobre o dia a dia. “É
algo normal, fazemos coisas que qualquer um faz, mas preferimos barzinhos que
tocam as nossas músicas, aquelas que conhecemos. Já fui a alguns que só tocava
sertanejo e pagode, não tenho nada contra, mas me senti deslocada. Querendo ou
não, o estilo de música que gostamos forma nossa vontade sobre as coisas do dia
a dia”.
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| Paloma à esquerda e Roberto à direita ( Cristina não quis aparecer na foto) |
Conversamos com mais outras duas
pessoas: Cristina Moraes, 22 anos, e Roberto Borges, 22 anos. Os dois são
namorados e roqueiros, mas gostam de freqüentar lugares diferentes. Cristina gosta
de se reunir com os amigos para tocar em sua banda, ela é a vocalista. Seu tão
amado passatempo é completamente diferente do de Roberto, que gosta de passar o
dia andando de Skate com os amigos, tudo ao som de “Charlie Brown”, é claro. “Gostamos
de coisas diferentes, mas não quer dizer que não fazemos juntos às vezes. Adoro
ir aos ensaios da Cris, assim como ela sempre se aventura no Skate comigo”,
afirma Roberto.
Consequentemente encontramos
todos os entrevistados acima no mesmo lugar: Galeria do Rock. Segundo Airan, é
um lugar que se sente em casa. “Faço muitas compras aqui e me animo pra vir. É
um lugar que ninguém me olha torto e posso fazer o que eu quiser”. Se você ir
até lá, com certeza encontrará roqueiros de qualquer estilo, desde os que tem
um mais casual até os mais pesados. Essa é exatamente a graça do local.
| Galeria do Rock |
O que não canso de dizer é que o
Rock transparece como a sociedade está hoje: diversificada. Por que não ter
pessoas diferentes dentro de um mesmo estilo musical?
Somos todos Rock, amigo. Vamos
terminar nosso post com a frase mais clichê do Rock, mas também a mais
verdadeira: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”...





