Era verão de 2001 quando ouvi
minha prima desesperada falando que a fulana tinha morrido. Eu estava na praia
e não entendi nada, nunca havia ouvido falar de uma cantora rockeira. Eu tinha
cinco anos e ainda sabia todas as coreografias do É o Tchan, não me julgue. Quem
era a Cássia Eller que havia falecido? Achava que todas as rockeiras usavam
apenas roupas pretas, coturnos e batons escuros, assim como a minha prima. Ela
ia a todos os shows do Raimundos, mas sempre que eu a via cantando “fazer amor
de madrugada, em cima da cama e embaixo da escada”, achava estranho. Kid Abelha
era considerado um rock mais leve, mas tenho certeza que no show deles não
tinha muitas pessoas com o look da minha prima. O maior problema foi eu
descobrir anos mais tarde que apesar de cantar Raimundos de cabo a rabo, ela
ainda mandava cartas para o Latino. Sim, o Latino. Cada um com os seus gostos e
diversidade, não é? Preferi pensar assim. Naquele verão vi parte da minha
família chateada. Por que ficariam assim por causa de alguém que nem conheciam?
O que a tal de Cássia Eller tinha de tão especial?
Lembro que quando eu tinha lá
para meus oito anos, estava chorando no jardim da casa de minha vó. Meu pai
havia dito pela centésima vez que eu insistia em ser diferente de todos e que
sempre discordava das coisas mais óbvias e eu precisava mudar. Tenho gravado na
cabeça ainda a cena do meu tio me espiando no canto do portão, e depois de um
tempo ele entrou e veio sentar ao meu lado. Ele me olhou e perguntou sobre meus
sentimentos e o que eu fazia quando estava feliz. E que criança saberia
responder uma perguntas dessas no meio de um monte de lágrimas? Eu era feliz do
meu jeito e pronto, ué. Ele olhou para mim com um sorriso suspeito e me veio
com outra pergunta: música te faz feliz? Eu não conhecia tanto sobre esse
assunto, e para mim música era cantar em espanhol as trilhas sonoras de novelas
mexicanas. Um espanhol de uma criança de oito anos, imagine como era. Ele
disse: “Você não acha que é a ovelha negra da família? Suas opiniões são mais
fortes e decididas, vejo você correndo atrás daquilo que quer com esses seus
poucos anos de idade. Quero lhe deixar feliz”. Nisso, ele colocou fones em meu
ouvido e escutei aqueles versos: “Foi quando meu pai me disse: filha, você é a
ovelha negra da família. Agora é hora de você assumir e sumir...” Rita Lee era
o nome dela. Como ela podia dizer exatamente o que eu sentia? Tive a resposta a
respeito da tristeza de todos por causa da morte da Cássia Eller, e vi que
essas pessoas que estão lá do outro lado do fone de ouvido cantando, fazem
parte de nós.
A partir daquele dia eu recorria
à musica em qualquer situação da minha vida. Para ser mais precisa: ao rock.
Com doze anos tornou-se decorrente na minha vida. Ninguém na escola ouvia
Cazuza. Ninguém na escola sabia a discografia completa do Queen. Ninguém na
escola sabia todas as letras de Bon Jovi, Aerosmith, Creed, Pearl Jam, Capital
Inicial, Paralamas, Skank e Lulu Santos, meus preferidos. Ninguém na escola
sabia as coreografias da Blitz ao invés da Rouge. Mas quem disse que isso era
ruim? Ensinei meus amigos a ouvirem minhas músicas, e não teria como não
gostar.
Três anos depois um deles montou
uma banda cover do Guns n’ Roses, uma amiga começou a tocar baixo em uma banda
da cidade e eu ganhei minha primeira guitarra. Comecei a vender doces pra
comprar um ingresso para ir ao show do U2, dormi na fila do show do AC/DC e vi
o quanto a paixão move as pessoas. Chorei como nunca enquanto Jon Bon Jovi
cantava “I’ll be there for you” no último show que fez no Brasil em 2013, e
vivi cada momento como deveria ser vivido, um lema que levo para a minha vida.
Posso ainda ser a ovelha negra da
família, e percebi que não adiantava chorar, mesmo estando perdida. Eu me
encontrei com a música, com uma junção de lágrimas, coração partido e
contentamento com quem eu sou. Isso que aprendi com o rock: não importa como
esteja, onde esteja, você tem uma importância inexplicável para alguém, e esse
estilo musical é assim, como cada um de nós. Tem sentimento, tem história.
Comprei meu carro e no rádio só toca aqueles que me marcaram e aqueles que
estão marcando. Em pleno século 21 arranjei motivos para jogar na cara de todos
que o rock ainda não acabou.
Hoje arrumei minha mala e vim
dirigindo com Skank no ouvido minha antiga guitarra no banco do passageiro. Ela
me ajudou tanto e vi que ser a ovelha negra te torna especial, que não vale a
pena esperar te aceitarem, “tira isso da cabeça e põe o resto no lugar”.
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